
A experiência de trabalhar o sensível para abrir os espaços de aprendizagem nos pode levar a muitos lugares interessantes.
Por exemplo, nesta terça-feira realizei, junto com a minha amiga e professora Raquel Silveira, uma imersão musical na sua turma de Espanhol no Colégio de Aplicação João XXIII. A estratégia era simples, elaborar um monólogo sobre América Latina tendo como pano de fundo, músicas latino-americanas dos meus discos de vinilo que seriam rodados por minha amiga em um par de toca-discos muito rudimentares.
O mais interessante era que, para direcionar a experiência ao ouvido, colocamos vendas nos olhos dos participantes de forma a eliminar as referencias visuais do exterior. Só restava ouvidos e imaginação: essa foi a base da experiência sensível.
Peter Sloterdijk já falava do poder do som, o qual, muito antes que a referência visual, nos estimula desde a tenra idade intra-uterina; desde o ventre materno elaboramos uma relação não-objetal com exterior. A voz da mãe é o melhor exemplo da realação que Sloterdijk destaca: ela se transforma em pura afetação; tranquilidades e continuidade entre a placenta e a atmosfera terrana.
Portanto, se tratou de conduzir o entrelaçamento do sensível (e não do visível) com os variados contextos culturais da nossa América Latina. Pensamos em uma narrativa histórico-geográfica, mas de fato poderia ter sido qualquer outra, pois o poder dessa apertura é muito grande e ela desperta muitas emoções.
A minha começou em Perú, com As Alturas de Machu Pichu, poemas de Pablo Neruda musicalizadas pelo grupo chileno Los Jaivas e terminou com a própria voz do poeta declamando seu poema Américas. Do Perú, passei para México e a famosa lenda La Maldição de la Malinche, que narra o papel de uma princesa náhuatl durante a conquista espanhola: concubina do conquistador espanhol Hernán Cortes, a maliche ajudou esse a someter os povos ameríndios do México dando informações preciosas para o conquistador poder ganhar as batalhas. Maliche é sinonimo de traição às culturas originárias.
Para contar um pouco mais da historia ameríndia, seguiu a música Dorotea la Cautiva, na voz de Mercedes Sosa de Argentina. Essa canção conta a historia de uma jovem que fora raptada pelos Ranqueles (etnia do norte argentino) mas que se nega a retornar à vida da sociedade colonizadora pois já tinha três filhos como o cacique Ranquel e não se considerava mais uma huinca (branca). Ela se considerava índia, digamos, índia por amor, segundo o relato musical.
O resto da aula foi um percurso pela América Latina negra, e resulta incrível como a costura da cultura africana pode nos dar uma outra ideia do ser latino-americano. A viagem incluiu a musicalidade cubana, panamenha, colombiana, venezuelana e peruana, sem contar com as novas expressões que vão desde ritmos como o rap cubano até a nova cúmbia chilena.
O resultado foi o melhor: a curiosidade dos participantes foi logo despertada para o idioma e a história de nossa América amada.
Esta experiencia nos mostra que a forma de aproximar estudantes ao contexto de aprendizagem dos conteúdos disciplinares podem ser realizados de muitas maneiras, mas certamente, é através do afeto que realmente afetamos a vida daqueles que comparecem às atividades escolares.